Em companhia dos amigos @deborasabia e @glauberCs ouvi a música “Infinito Particular” da Marisa Monte e começamos um exercício de interpretação da bela canção relacionando aos conceitos de Web 2.0 e Cibercultura.
A música:
Saca aí a viagem (verso a verso):
“Eis o melhor e o pior de mim”
Na web, seja em Facebook, Twitter, Orkut e outras centenas de redes sociais, qualquer perfil criado por um usuário procura sempre mostrar o melhor de si, ou através de check-ins em locais badalados, fotos com turmas numerosas, incentivo aos inúmeros comentários em postagens. Por vezes o “melhor” segundo a ótica do determinado usuário é o pior pra outras pessoas, que o rotulam como “poser”. Eis, portanto a literal tradução do primeiro verso em se tratando de exposição na Web, ao criar um perfil, qualquer eu-usuário, intrinsecamente está publicando o pior e melhor de si.
“O meu termômetro, o meu quilate”
O eu-usuário em exposição na web, encontra-se no campo de batalha das vaidades virtuais, e deseja saber como os “amigos”, conhecidos ou afins avaliarão seu perfil, seja como pessoa: popular, legal, interessante, divertida, inteligente, revolucionária ou outros tantos cíber-rótulos. A web é, portanto, pra ele é uma espécie de termômetro de vida, interage com a clara intenção de expor um conceito iconográfico, em tempo que disponibiliza a “personalidade” para avaliações à cerca de ganhar status e representatividade de nome e conceito. É dessa forma relacionada com a melodia que os versos citam “termômetro e quilate” casam perfeitamente com a análise.
“Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler”
Interpretamos esses versos transportando pra o contexto das necessidades de interação que qualquer usuário em web 2.0 objetiva como algo instintivo desse tipo de mídia. É o inconsciente do eu-usuário que diz: olha, me veja meu novo álbum, é fácil, eu sou simples, isso que postei agora tem o sentido fantasioso, mas é fácil interpretar, eu sou e não sou difícil. Eu sou isso, eu sou aquilo. Eu não sou difícil de ler.
“Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara”
Seguindo com o conceito de interação, após falarmos que a iconografia na web é nutrida por esta, somente será considerada completa se houver o contato, traduzindo esse contato ao universo virtual de agora, cito: curtir, comentar, compartilhar, marcar foto, retuitar, reply além de todos os verbos e expressões evidenciadas por essas novas formas de relacionamento. É o inconsciente do eu-usuário postando: vem me curtir, eu não sou de marte, eu sou legal, me repara, cutuca, eu faço parte.
“Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim”
Eis o paradoxo do tipo de relação fantasiosa que visualizamos expressa em murais, comunidades e outros tipos de interações virtuais. Na condição de eu-usuário quero parecer incluso no movimento dos “normais” que postam fotos do final de semana, participam das campanhas e correntes da moda, ou opinam sobre o assunto do momento, também carrego o desejo de autenticidade, independência e autonomia. No uso dessas ferramentas, o eu- usuário posta conteúdos emoldurados com ironias, metalinguagens criativas e doses de anarquismo digital. É nesse sentido que o verso que cita: “ser porta bandeira de mim”- e traduz toda essa vontade potência (via F. Nietzsche) do ser humano.
“Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular”
Considero esse o ápice da nossa brincadeira de análise interpretativa. O que seria não se perder? Ou entrar aonde?
Na cibercultura o perder pode ser relacionado à falta de objetivo, a idealização errônea dos fatos e das pessoas. Essa perca de noção se dá justamente pela formação de imagem iconográfica em seu conceito mais abstrato e conseqüente carga simbólica que nos leva a admirar ou odiar outro usuário sem conhecê-lo pessoalmente. Na prática é como se ao visualizar um determinado perfil desconhecido ou não, fôssemos levados a nos perder no infinito universo de interpretações daquelas imagens, letras e afins.
“Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara”
Relacionamos com a inconstância de humor dos usuários da web, principalmente quando anseiam por declarações de outros usuários na vida real e virtual. Ao mesmo tempo em que esse eu-usuário é “gigante” por ter ali a sua disposição o canal de expressão que alcança o mundo inteiro, mas se torna” pequenino” pela necessidade de nesse mesmo canal depender da interação/declaração do outro pra se constituir um ser ativo no sistema de interesses das redes sociais. É o fator básico para existência da comunicação: haver no mínimo um receptor para cada mensagem, sem receptor a mensagem de um gigante se torna pequenina.
“O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder”
Depois de ter relacionado tudo isso aí em cima, se você leu esses versos e não pensou em dispositivos móveis (smartphones, tablets, notebooks e etc.) aconselho que releia do início toda a brincadeira de pensar fiz até aqui. É portátil sim, e o eu-usuário permanece online 24 horas por dia, não tem nada a esconder, diz onde se encontra no mapa-mundi, necessita que todo o planeta onde mora saiba sobre sua vida. (O Show de Truman)
“Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo”
O eu-usuário quer aparecer, quer mostrar a cara, por essa razão ramifica seus perfis, cria novos, está em muitas mídias diferentes, tem dispositivos que o possibilitam ficar conectado em todos lugares. Ainda assim, é paradoxal quando expõe extremamente sua vida, não esconde “segredos” nenhum sobre sua vida e deseja parecer misterioso. Convida outros usuários a entrar naquele infinito, sem medo, sem segredos, mas com o mistério que o avatar esconde da realidade fora dali.
“A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular”
É reiterada nesses últimos versos a relação desse eu-usuário com o fato de está disponível para bate papo, online no messenger, no skype, com mural aberto no Facebook, fotos sem restrição no Orkut. A água é potável podem beber, pois ele está aberto a novas possibilidades ( me add pra tc). De forma oculta oferece o conselho; cuidado pra não se perder, pois esse é um infinito e não sei se particularmente eu faço parte dele.
A web é o infinito particular de cada um de nós.









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