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Há 10, eu vi faíscas e também fogo.

Há 10 anos, eu tinha 16 anos.

Há 10 anos, cursava o ensino médio no Colégio Regina Pácis (se não me engano o 2º ano).

Há 10 anos, durante o intervalo de um dia normal no colégio, vi a movimentação estranha de uma quantidade grande de colegas de sala que saiam da nossa aula e dirigiam-se para a sala ao lado.

Curioso que sou, resolvi verificar. No caminho até a sala pensei se tratar de mais uma briga marcada entre os “turrões” do 3º ano.

Ao chegar à sala, todos estavam vendo TV (que há minutos exibia uma tele-aula) espalhados entre as cadeiras o olhar era fixo para a tela.

Foto: Ignácio Aronovich, 1991

Perguntei a um deles o que ocorria, a resposta era de que a TV mostrava o começo da  “3ª guerra mundial”. A resposta foi acrescentada da informação de que essa “guerra”, a qual visualizávamos na TV, iniciava com a destruição dos Estados Unidos da América.

Lembro da imagem das torres + fumaça +  “ao vivo” abaixo da logo da TV Globo + barulho dos colegas

O intervalo acabou, retornamos pra sala. Muitos colegas disseram para a professora brincando, que não deveríamos continuar a aula, sugerindo a ida para nossas casas imediatamente, a fim de assistir a “guerra ao vivo pela TV”.

A professora não ouviu e continuou sua explicação.

A ansiedade pra acabar a aula foi grande. Colegas cochichavam a todo minuto que a América do Sul seria o próximo alvo da “3ª Guerra”.

Contei os minutos pra terminar a aula e no caminho até minha casa (cerca de 2 quarteirões do colégio)nesse caminho todas as imagens dos filmes de guerra que assisti, vieram editadas com sutileza à mente medrosa de adolescente.

Indo a pé, fiquei impressionado e com muito medo, olhava pra o céu, pensava em aviões soltando mísseis – atravessava a rua olhando pra trás na espreita de ver soldados e ouvir balas de metralhadoras – em alguns locais tive medo de pisar no chão achando que ali estariam dinamites secretas.

Ao chegar a casa (minha fortaleza blindada anti-bombas), bebi água, percebi que ninguém ali estava ciente do que acontecia no mundo. Tv da sala desligada, somente ouvia o barulho da panela de pressão cozendo feijão à todo vapor. Fiquei mais calmo, mas temendo o pânico, não consegui comentar nada com ninguém.

Ao perceber que um ataque da “guerra” em Crateús, não iria acontecer tão cedo, pela distância geográfica  principalmente – tomei banho, troquei de roupa e preparei o prato de almoço em seguida levei pra comer no  quarto.

Tranquei a porta, liguei minha Telefunken 1980 (vide foto abaixo – a sala de casa tinha acabado de ganhar um aparelho novo, e a alemã citada, foi automaticamente pra o quarto do filho mais velho) liguei o ventilador de teto, abri as cortinas do janelão de madeira que dava vista pra rua.

Meu tubo de raios catódicos (e faíscas) em 2001 – Comecei a ver o mundo e um traço da sua maldade através desse engenhoso aparelho.

Sentado, comecei a provar do prato indigesto que aquela repetição de imagens me proporcionava.  Durante a transmissão, angustiado também pelo calor costumeiro do mês de Setembro, vez por outra mudava os canais pelos botões duros da Telefunken, mas a cena era a mesma. A imagem me deixava confuso, o calor do momento acontecendo ao vivo, o calor de Crateús. [primeiro contato com o surreal] Por vários momentos não acreditei que estava vivendo aquela situação.

Acompanhei a transmissão até o final.

Nesse dia dormi perplexo.

Hoje, 10 anos depois, penso que não houve propriamente um final, e perplexidade virou rotina quando vejo TV. [aliás durante a década, ela (a TV) se especializou nesse viés de “entretenimento”]

PS:

- Telefunken foi uma empresa alemã fabricante de rádios, televisores e componentes eletroeletrônicos fundada em 1903 em Berlim. (via Marcas Retrô)

- Em tradução livre do alemão a palavra “funken” significa faísca. 

- Muita coisa mudou de 2001 pra cá. Presidentes iniciaram guerras, ditadores caíram, ditadores fugiram, crises econômicas, revoluções, internet, faíscas disso tudo, mesmo que ocorrendo distantes, chegam até nós, mas o prenúncio da primavera árabe dá esperança de que vejamos flores onde hoje são campos de batalha. [ouça “Amanhã Será?” do grupo Teatro Mágico]

- A aula que assisti no dia, não lembro, mas aprendi o significado da palavra intolerância.

- Quando enxergar faísca de ódio acesa – encharque-a com amor.

- #GodBlessWorld



Recomendo que você também leia:

A linha do tempo no dia 11/09/2001.  (via BBB Brasil)

Opinião lúcida e coerente sobre os dez anos do atentado. (via Martha Mamede Batalha – Revista Época)

Onde eles estavam em 11/09/2001? (via Revista Época)


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